Alpargatas: Campanha da Havaianas vira debate político e gera crise de imagem
Crise publicitária de fim de ano da Havaianas coloca a Alpargatas no centro do debate político-ideológico nacional
Reprodução / Instagram A Alpargatas S.A., empresa que detém a marca Havaianas, enfrentou uma intensa repercussão pública após o lançamento de sua campanha publicitária de fim de ano. O comercial rapidamente extrapolou o campo do marketing e passou a ser interpretado por setores do público sob um viés político. O episódio ganhou ainda mais força devido à associação com o histórico recente da atual liderança da companhia e o clima de forte polarização que permeia o país.
Nova gestão e o Conselhão
A Alpargatas é comandada, desde fevereiro de 2024, por Liel Marcio Cintra Miranda. O executivo possui uma longa carreira no setor corporativo, com passagens por grandes multinacionais, e acumulou mais de três décadas de experiência em cargos de alta gestão. Antes de assumir a presidência da dona das Havaianas, ele era presidente da Mondelēz no Brasil. A nomeação foi vista no mercado como um esforço para reposicionar a empresa após um período de instabilidade financeira e estratégica.
O nome de Liel Miranda já era conhecido em círculos políticos desde 2023, quando ele integrou o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão, um órgão consultivo ligado ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O colegiado congrega empresários, representantes da sociedade civil e especialistas com o objetivo de oferecer sugestões para políticas públicas e estratégias de desenvolvimento nacional. A participação do executivo não implicava em função executiva ou poder de decisão governamental, mas o colocava em posição de diálogo direto com o Palácio do Planalto.
Sua passagem pelo Conselhão foi breve, com duração de pouco mais de um ano. Em junho de 2024, Liel Miranda se desligou do grupo devido a mudanças em sua posição profissional. No entanto, a associação com o órgão consultivo foi resgatada nas redes sociais meses depois, no ápice da polêmica da campanha publicitária.

A campanha do “pé direito” e a leitura política
O comercial que desencadeou a crise foi estrelado pela atriz Fernanda Torres e fazia parte da comunicação institucional de fim de ano da Havaianas. O trecho que gerou maior controvérsia trazia a personagem afirmando não desejar que o público iniciasse o ano com o "pé direito", uma expressão tradicionalmente ligada a sorte e bons presságios. Na sequência, a mensagem, em tom leve e bem humorado, sugeria começar o ano com os dois pés, visando reforçar as ideias de equilíbrio e liberdade.
Apesar da intenção declaradamente simbólica, a escolha da expressão foi imediatamente interpretada por críticos como uma possível alusão política, referenciando a direita no espectro ideológico brasileiro. A interpretação ganhou corpo no ambiente pré-eleitoral e se espalhou rapidamente nas redes sociais, culminando em acusações de que a marca estaria se posicionando de forma contrária a determinados grupos políticos.
Reação pública e retirada do ar
A reação do público foi rápida e contundente. Influenciadores, políticos e diversos usuários expressaram críticas à campanha, promovendo boicotes e questionando a neutralidade da empresa. A controvérsia levou a Havaianas a restringir os comentários em seus perfis oficiais e, posteriormente, a retirar o conteúdo do ar, numa tentativa de mitigar o desgaste de imagem.
O incidente demonstra como marcas de grande apelo popular tornaram-se alvos frequentes de disputas simbólicas em um contexto de extrema polarização. Mensagens que antes seriam consideradas neutras ou universais passam a ser analisadas sob lentes políticas, muitas vezes independentemente da intenção original da empresa.
Para a Havaianas, historicamente construída como um símbolo transversal da cultura brasileira, associado à ideia de que é uma marca para todos, o episódio representou um desafio considerável. A marca se viu inserida em um debate que mescla consumo, identidade e política, realçando como decisões criativas e escolhas de linguagem podem adquirir significados ampliados em momentos de tensão social.
O caso também reacendeu discussões sobre os limites entre posicionamento institucional, liberdade criativa e a expectativa de neutralidade demandada de grandes empresas. Em um cenário onde qualquer ação pode ser lida como um sinal político, a crise do comercial do “pé direito” ilustra a crescente proximidade entre comunicação corporativa e debate público.
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