Baterias de carros elétricos ganham nova vida em projeto da CELESC
Sistema móvel inovador transforma descarte automotivo em gerador capaz de abastecer bairros inteiros em situações de emergência
Divulgação Diante da expansão da eletromobilidade, o setor de energia começa a enfrentar o desafio técnico e ambiental sobre o destino das baterias de veículos elétricos. Quando esses componentes deixam de servir ao propósito automotivo, eles ainda preservam uma capacidade de armazenamento considerável. Uma iniciativa desenvolvida em Santa Catarina busca solucionar esse impasse antes que ele se torne um problema em larga escala.
Uma resposta para a infraestrutura energética
Montada sobre um semirreboque, uma solução móvel de armazenamento foi criada para reaproveitar componentes que perderam a utilidade viária. O protótipo funciona como um sistema de armazenamento transportável, projetado para levar eletricidade a pontos estratégicos da rede de distribuição. O foco operacional está em cenários de manutenção programada, picos sazonais de consumo ou atendimento emergencial após desastres climáticos e acidentes.

Equipado com células de segunda vida, o maquinário utiliza unidades que retêm entre 70% e 80% da capacidade original de carga. Esse reaproveitamento evita o descarte prematuro e insere os materiais na lógica da economia circular. O equipamento possui potência instalada de 150 kW e capacidade nominal de 430 kWh, o que garante autonomia para manter o fornecimento de eletricidade por pelo menos três horas em condições normais. Em termos práticos, o volume é suficiente para sustentar cem residências por um dia inteiro ou dez casas ao longo de uma semana.
A necessidade de respostas ao crescimento da frota
Impulsionada por dados de mercado que apontam uma forte guinada na frota de veículos elétricos no Brasil, a tecnologia acompanha um salto expressivo no volume de emplacamentos. O total nacional de automóveis eletrificados subiu de 2.875 unidades em 2015 para 613.389 veículos em 2025. No território catarinense, o mercado expandiu de meros 223 carros para expressivos 40.487 no mesmo intervalo de dez anos.
Embora esse consumo ainda se concentre em fatias populacionais de maior poder aquisitivo e nos grandes centros urbanos, a tendência é de massificação com a chegada de novas marcas e expansão dos postos de recarga. Consequentemente, surge uma pressão ambiental. Estima-se que o descarte incorreto desses materiais, ricos em metais pesados e compostos químicos, possa gerar um passivo mundial superior a 20 milhões de toneladas até o ano de 2040.
Flexibilidade técnica e aplicações práticas na rede
Conectado diretamente às linhas de distribuição, o equipamento opera tanto em baixa tensão, nas faixas de 220/380 V comuns ao ambiente residencial, quanto em média tensão, na casa dos 13,8 kV que cruzam a fiação dos postes. Essa versatilidade permite o suporte direto em intervenções da concessionária. Durante reparos programados, o gerador móvel assume a carga local, permitindo que os técnicos trabalhem em segurança sem a necessidade de interromper o fornecimento aos consumidores daquela região.
Outra utilidade importante diz respeito ao reforço operacional em áreas que sofrem com a sazonalidade, como o litoral catarinense durante a temporada de veraneio, quando o pico de consumo sobrecarrega as subestações fixas da Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc). Em situações críticas, a unidade pode ser deslocada prioritariamente pela Celesc para proteger o funcionamento de serviços essenciais, incluindo hospitais, postos de saúde e delegacias, enquanto o sistema principal é reestabelecido.
Desenvolvimento tecnológico e reconhecimento científico
Construído a partir de estruturas mecânicas projetadas especificamente para receber a tecnologia de controle eletrônico nacional, o reboque teve sua origem ligada a baterias usadas em um ônibus elétrico que operou em testes severos, acumulando rodagem equivalente a três voltas completas ao redor da Terra. O desenvolvimento reúne equipes de pesquisadores do Grupo de Pesquisa em Energia Solar da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e engenheiros do setor produtivo, contando com recursos captados via programas de pesquisa e desenvolvimento regulados pela agência governamental do setor elétrico e viabilizados pela parceria com a Celesc.
Mesmo em estágio experimental e passando por baterias de testes operacionais no laboratório da UFSC, o projeto já alcançou relevância institucional ao figurar em premiações expressivas do segmento elétrico latino-americano nos anos de 2024 e 2025, com novas submissões planejadas para 2027. O ecossistema de pesquisa gerou uma robusta produção acadêmica na UFSC, acumulando dissertações de mestrado, teses de doutorado e artigos técnicos apresentados em congressos nacionais e internacionais de energia solar e armazenamento energético.
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